História das levadas da Madeira: como funcionam os canais de água
Dos canais dos primeiros povoadores aos 63 km da Levada dos Tornos: como as levadas repartem a água por giro, quem eram os levadeiros e como percorrê-las em segurança.
28 outubro 2026 · 7 min de leitura
As levadas são os canais de rega da Madeira: canais estreitos e de pendente suave que levam a água, por gravidade, das nascentes da serra e do norte húmido e florestado até aos terrenos agrícolas, às povoações e às centrais hidroelétricas mais a sul. Constroem-se e reconstroem-se há cerca de 600 anos, desde o povoamento da ilha no século XV, e os caminhos de manutenção que as acompanham são hoje os percursos pedestres mais conhecidos da Madeira. Percorrer uma levada é seguir uma infraestrutura em funcionamento, não um trilho criado para visitantes.
Factos essenciais
- Idade: cerca de 600 anos de construção, segundo o livrete da candidatura à UNESCO publicado pelo Governo Regional.
- Rede pública: 103 levadas principais de gestão pública, segundo o mesmo livrete.
- Exemplos mais extensos: Levada dos Tornos, 63 km (construída entre 1958 e 1966), e Levada do Norte, 51 km (1947–1952).
- As mais antigas que pode percorrer neste guia: Levada do Risco (1835–1860) e Levada das 25 Fontes (1852–1890), ambas no Rabaçal.
- UNESCO: oito levadas, num total de 25,20 ha (com uma zona tampão de 7584,49 ha), foram propostas a Património Mundial.
- Época de rega na Madeira: normalmente de maio a outubro, segundo o regulamento regional do regadio de 2026.
Quando e porque foram construídas as levadas da Madeira?
Quando os povoadores portugueses chegaram, a Madeira era desabitada e coberta por floresta densa. Um estudo de 2021 publicado no Arquivo Histórico da Madeira (Wittenberg e Rhode) descreve como os povoadores começaram desde o início a abrir canais para levar a água das ribeiras e nascentes até aos campos. Nos primeiros cem anos, o corte da floresta e a cana-de-açúcar transformaram a paisagem, e as levadas passaram também a mover moinhos de água. O estudo analisou 21 moinhos com rodízios horizontais e quedas de 4 a 35 m, usados para moer cereais, serrar madeira e esmagar cana.
O artigo da Wikipédia em português sobre as levadas, citando o geógrafo Raimundo Quintal, descreve fases de expansão e de pausa: crescimento com a cana-de-açúcar, estagnação a partir de meados do século XVII, quando o açúcar entrou em declínio e a vinha o substituiu, e uma nova vaga no século XIX. Em meados desse século as ribeiras do sul já não tinham caudal suficiente, pelo que foi preciso captar água nas ribeiras do norte e trazê-la através das montanhas. Eram obras caras, e o Estado interveio pela primeira vez. A Levada do Risco (1835–1860) e a Levada das 25 Fontes (1852–1890) pertencem a este período. Os relatos reunidos na Wikipédia referem também que o trabalho de pessoas escravizadas fez parte da história inicial da construção.
Como funciona uma levada?
A levada começa na madre, o ponto onde a água é captada numa ribeira ou nascente. Daí segue com pendente suave num canal a céu aberto, a caixa da levada, ou em túneis, os furados. Ao lado corre a esplanada, o caminho de manutenção que os caminhantes usam hoje. Muitos troços são pequenos: na Levada da Serra do Faial, a caixa tem uma largura média de 0,6 m.
A água chega aos terrenos através do tornadoiro, o ponto onde é desviada para cada parcela. A distribuição segue o giro, que o regulamento regional define como o tempo entre duas entregas consecutivas de água de rega ao mesmo ponto de entrega. Conforme a levada, a distribuição diária decorre das 7h00 às 19h00, das 8h00 às 20h00 ou em regime contínuo de 24 horas.
Um exemplo mostra o caminho que a água pode fazer. A água da Levada do Risco é entregue na Levada das 25 Fontes, junto ao Túnel do Cavalo, e segue para a Central Hidroelétrica da Calheta I. Depois de turbinada, passa por um reservatório e é injetada em mais duas levadas, para a Ponta do Pargo e para a Ponta do Sol, para consumo humano e rega. Quem caminha no Rabaçal acompanha água que acaba nas torneiras e nos campos da costa sudoeste.
Qual é, afinal, a extensão das levadas?
Não encontrámos um total oficial único. A Wikipédia em português atribui a Raimundo Quintal, num programa da RTP de 2021, cerca de 800 km de canais principais e 2300 km de canais secundários. Outros totais, entre 2000 e 3000 km, aparecem em guias sem fonte indicada. Os números mais seguros vêm do livrete da UNESCO do Governo Regional: 103 levadas principais públicas, com extensões como os 63 km da Levada dos Tornos e os 51 km da Levada do Norte. Qualquer total para a ilha inteira deve ser lido como estimativa.
Quem eram os levadeiros?
O dicionário Priberam regista levadeiro como regionalismo da Madeira: pessoa que distribui águas de rega através de levadas ou que cuida da sua manutenção. A partilha da água por giro só funciona se alguém mantiver o canal limpo e desviar o caudal no tornadoiro certo à hora certa. Era, e continua a ser, o trabalho do levadeiro. Na Levada do Norte, o livrete da UNESCO assinala as casas de guarda ao longo do canal, onde os trabalhadores da manutenção pernoitam quando é necessário.
Hoje o sistema público de regadio é gerido pela ARM – Águas e Resíduos da Madeira, concessionária do sistema multimunicipal desde o contrato assinado a 30 de dezembro de 2014. O regulamento de 2026 continua a usar o vocabulário antigo de giro, meio giro e tornadoiro.
O que mudou com as obras do Estado no século XX?
As grandes levadas do século XX foram pensadas noutra escala e para mais fins do que a rega. A Levada do Norte (1947–1952) percorre 51 km entre o Porto Moniz e Câmara de Lobos. A secção norte tem 19 túneis ao longo de 7,96 km, e a levada abastece consumo humano, rega e a Central Hidroelétrica da Serra de Água. A Levada do Alecrim (1953) foi construída em betão sobre o traçado de um canal do século XVIII. A Levada dos Tornos (1958–1966) estende-se por 63 km até à vertente sul, alimenta a Central Hidroelétrica da Fajã da Nogueira e abastece o Funchal de água para consumo, além da rega em Santa Cruz e Machico.
O resultado é o sistema de fins múltiplos descrito no livrete da UNESCO: água para beber, para a agricultura, para os moinhos tradicionais, para a produção de eletricidade e para o pedestrianismo. Em muitos troços, o betão e os túneis substituíram a pedra e a madeira, mas há secções antigas que sobrevivem. A Levada do Risco mantém-se, na sua maioria, no estado original, escavada na rocha.
Que levadas pode percorrer?
Os percursos PR classificados incluídos neste guia mostram diferentes épocas do sistema:
- Levada do Risco (PR 6.1): o canal de 1835–1860 no Rabaçal, 3 km em cada sentido, fácil.
- Levada das 25 Fontes (PR 6): o canal de 1852–1890, a partir do mesmo parque de estacionamento, entre laurissilva e urzal.
- Levada do Caldeirão Verde (PR 9): um canal do século XIX em Santana, 8,7 km em cada sentido, com túneis e troços junto a ravinas.
- Vereda dos Balcões (PR 11): 1,5 km ao longo da Levada da Serra do Faial, no Ribeiro Frio, a introdução mais fácil.
Como caminhar numa levada em segurança?
Todos os percursos PR classificados exigem marcação de horário e pagamento de taxa no portal SIMplifica; veja o nosso guia de reservas e taxas dos percursos. Os restantes conselhos vêm do IFCN, o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza:
- Confirme o estado do percurso. O IFCN avisa que a homologação e sinalização de um caminho não garantem que esteja transitável em segurança em qualquer altura do ano. Os percursos podem estar abertos, condicionados ou encerrados.
- Não caminhe sozinho e informe alguém do percurso e da hora prevista de chegada.
- Termine antes de anoitecer. Evite começar ao fim da tarde.
- Leve lanterna, agasalho, impermeável, estojo de primeiros socorros, comida e água, e use calçado antiderrapante. Túneis e piso molhado fazem parte da maioria das levadas.
- Volte para trás com chuva ou vento forte e, se encontrar uma derrocada, não a tente contornar.
- Mantenha-se no trilho sinalizado. Os desvios danificam o habitat e aumentam o risco de se perder.
- Número de emergência: 112.
O que mais se subestima é a berma. A esplanada foi feita para a manutenção, não para multidões, e em percursos como o Caldeirão Verde segue junto a ravinas. Deixe passar os outros caminhantes nos pontos mais largos em vez de subir para o muro da levada.
Fontes e verificação
Factos verificados nas fontes abaixo a 28 outubro 2026. Como trabalhamos
- IFCN / Governo Regional da Madeira — Levadas da Madeira: proposed nomination to the UNESCO World Heritage List (booklet)
- Wittenberg & Rhode (2021), Levadas e moinhos de água na ilha da Madeira — Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série 3
- JORAM — Portaria n.º 199/2026 (8 May 2026), irrigation service regulation of the ARM system
- IFCN — Dicas para o pedestrianista (official walking safety advice)
- Wikipedia (pt) — Levada
- Dicionário Priberam — levadeiro
Fotografias: Jörg Schmalenberger (= JOEXX) (CC BY-SA 3.0)