Fauna e aves endémicas da Madeira: o que pode ver e onde
Bisbis, pombo-trocaz, freira-da-madeira, lagartixa-da-madeira e o lobo-marinho das Desertas: onde as fontes oficiais os situam, o estatuto na UICN e as regras que os protegem.
28 outubro 2026 · 6 min de leitura
A Madeira tem um pequeno número de animais que não existem em mais nenhum lugar e alguns dos mais raros da Europa. O bisbis e o pombo-trocaz vivem apenas na ilha principal; a freira-da-madeira nidifica só em algumas saliências rochosas das serras centrais; e o lobo-marinho sobrevive em torno das Ilhas Desertas. Este guia reúne, a partir de fontes do IFCN, da UICN e científicas, as espécies que pode realisticamente ver, onde as fontes oficiais dizem que ocorrem, o seu estatuto de conservação e as regras que as protegem.
Factos essenciais
| Espécie | Onde | Estatuto UICN | O que esperar |
|---|---|---|---|
| Bisbis (Regulus madeirensis) | Ilha da Madeira, sobretudo 600–1550 m | Pouco preocupante | Ouve-se e vê-se com frequência na urze arbórea e na Laurissilva |
| Pombo-trocaz (Columba trocaz) | Ilha da Madeira, Laurissilva, sobretudo abaixo dos 1000 m | Pouco preocupante | Possível na vertente norte; o IFCN considera-o mais difícil de ver |
| Freira-da-madeira (Pterodroma madeira) | Saliências do maciço central | Em perigo (cerca de 80 casais) | Noturna nas colónias; não é espécie para procurar |
| Lagartixa-da-madeira (Teira dugesii) | Todo o arquipélago, do nível do mar a ~1850 m | Pouco preocupante | Vê-se quase em todo o lado, ao sol |
| Lobo-marinho (Monachus monachus) | Ilhas Desertas, ocasionalmente noutros pontos | Vulnerável (global) | Cerca de 30 animais no arquipélago |
Que aves são endémicas da Madeira?
Há três espécies de aves endémicas da Madeira: o pombo-trocaz, o tentilhão-da-madeira e o bisbis. Duas aves marinhas, a freira-da-madeira e a freira-do-bugio, só nidificam no arquipélago.
Onde posso ver o bisbis?
O bisbis é uma ave minúscula, com cerca de 9–10 cm e uns 5 g; o IFCN chama-lhe a ave mais pequena da ilha. Foi considerado subespécie da estrelinha-real até 2003, ano em que foi reconhecido como espécie própria. Vive sobretudo entre os 600 e os 1550 m, prefere a urze arbórea, mas usa também giestais, Laurissilva e outros bosques; evita plantações de eucalipto e acácia. A população está estimada entre 100 000 e 200 000 aves e o estatuto é "pouco preocupante".
O painel oficial do IFCN da Vereda dos Balcões, no Ribeiro Frio, descreve o miradouro dos Balcões como um local ideal para observar aves endémicas, referindo o bisbis e o tentilhão-da-madeira, que, segundo o painel, se aproxima muitas vezes de quem passa. A urze das zonas altas, à volta dos picos, é também habitat do bisbis.
Posso ver o pombo-trocaz?
O pombo-trocaz só existe na Madeira; chegou a nidificar no Porto Santo, mas desapareceu dessa ilha. Vive na Laurissilva e em urzais densos muitas vezes cobertos de nuvens, sobretudo abaixo dos 1000 m e principalmente na vertente norte. Alimenta-se apenas de plantas — sobretudo frutos e, depois, folhas.
Em 1986, quando a caça foi proibida, restavam cerca de 2700 aves; as estimativas atuais apontam para 7500 a 10 000, e a UICN classifica-o hoje como "pouco preocupante". O painel do IFCN nos Balcões diz que é mais raro de observar do que o bisbis ou o tentilhão. O IFCN também o menciona ao longo da Levada do Caldeirão Verde. Ambos os percursos atravessam a Laurissilva, a floresta UNESCO da Madeira.
O que é a freira-da-madeira e porque não a vai ver?
A freira-da-madeira é, nas palavras do Governo Regional, uma das aves marinhas mais ameaçadas do mundo. O programa LIFE da UE indica que está classificada como Em Perigo na Lista Vermelha da UICN, com cerca de 80 casais a nidificar em saliências de falésia no maciço montanhoso oriental da Madeira — as zonas altas entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo, acima dos 1650 m, segundo a Wikipédia. As aves só chegam às colónias depois de escurecer e regressam no fim de março ou início de abril.
A espécie esteve à beira do abismo. Um incêndio em agosto de 2010 matou três adultos e 25 de 38 crias. Ratos e gatos assilvestrados, introduzidos, atacam ovos, crias e adultos. O projeto atual, LIFE Pterodromas4future (outubro de 2021 a setembro de 2028), é coordenado pelo IFCN, com a SPEA — Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves — como parceira. Identifica ameaças como os incêndios, os predadores invasores, a poluição luminosa e o uso das áreas de nidificação para lazer, e prevê uma faixa corta-fogo em torno das saliências, ninhos artificiais e controlo de gatos e ratos.
Para quem visita, a mensagem é simples: na Vereda do Areeiro e nos picos, mantenha-se no trilho marcado. A espécie irmã, a freira-do-bugio, está classificada como Vulnerável, com cerca de 180 casais a nidificar apenas no Bugio, nas Desertas.
E a lagartixa-da-madeira?
A lagartixa-da-madeira (Teira dugesii) é o pequeno lagarto que se vê em muros, rochas e caminhos praticamente em todo o lado. É endémica do arquipélago — Madeira, Porto Santo, Desertas e Selvagens — e estabeleceu-se nos Açores depois de ter sido levada acidentalmente por navios. Os adultos medem cerca de 8 cm do focinho à cloaca, com uma cauda cerca de 1,7 vezes maior. Vive do nível do mar até cerca de 1850 m e come sobretudo pequenos invertebrados, além de alguma matéria vegetal como fruta. É comum e está classificada como "pouco preocupante"; não lhe dê comida.
Onde posso ver um lobo-marinho na Madeira?
O lobo-marinho (foca-monge-do-mediterrâneo) é a única foca do arquipélago. Em maio de 2026, o Governo Regional, através do IFCN, estimava a população em cerca de 30 animais no arquipélago, com o núcleo principal em torno das Ilhas Desertas, que são reserva natural. A nível global, a UICN reavaliou a espécie em 2023, de "Em Perigo" para Vulnerável, depois de pequenos aumentos em algumas subpopulações; o Governo Regional continua a descrevê-la como em perigo a nível local.
Há avistamentos ocasionais noutros pontos, incluindo ao largo da Ponta de São Lourenço. As atividades na área marinha da reserva das Desertas exigem autorização prévia da entidade gestora, pelo que as visitas se fazem normalmente com operadores licenciados.
Que regras se aplicam à fauna?
Orientações do IFCN para quem encontrar um lobo-marinho:
- Mantenha uma distância de segurança; não toque nem alimente o animal.
- Na praia: reduza o ruído e não deixe cães ou outros animais domésticos aproximarem-se.
- Na água: não entre se o lobo-marinho estiver na zona.
- No mar: nunca o persiga nem se aproxime deliberadamente; se ele se aproximar da embarcação, mantenha a calma e o rumo.
- Comunique avistamentos em lobomarinhomadeira.com; a Rede SOS Vida Selvagem recebe também comunicações por WhatsApp no +351 961 957 545.
Nos percursos classificados, as normas de conduta do IFCN pedem que não se recolham plantas nem animais, se evite o ruído e se fique no trilho. Não alimente aves nem lagartixas. Os voos de drone sobre a Laurissilva e outras áreas naturais podem estar condicionados ou exigir autorização do IFCN.
Que mais devo saber?
A vida marinha é outra história: veja observação de baleias e golfinhos na Madeira e a Reserva Natural Parcial do Garajau. A Deserta Grande é também o lar de uma aranha-lobo endémica, a Hogna ingens.
Fontes e verificação
Factos verificados nas fontes abaixo a 28 outubro 2026. Como trabalhamos
- IFCN — PR 11 Vereda dos Balcões official trail panel (endemic birds, code of conduct)
- European Commission LIFE — LIFE Pterodromas4future (IFCN, SPEA): Zino's and Desertas petrels
- Diário de Notícias — Regional Government/IFCN guidance on the monk seal (about 30 animals), 20 May 2026
- Wikipedia — Madeira firecrest (IUCN status, range, altitude)
- Wikipedia — Trocaz pigeon and Zino's petrel (IUCN status, population history)
- Wikipedia — Mediterranean monk seal (IUCN 2023 reassessment, Desertas)
Fotografias: Rudi B. (CC0)