Bordado Madeira e artesanato: como reconhecer uma peça autêntica
O Bordado Madeira é feito à mão, regulado por lei e certificado peça a peça com o selo de garantia do IVBAM. História, como se faz, como reconhecer o autêntico, o vime da Camacha e outros ofícios.
28 outubro 2026 · 6 min de leitura
O Bordado Madeira é bordado à mão feito na ilha segundo regras fixadas em legislação regional, e cada peça autêntica é verificada e selada pelo Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM) antes de poder ser vendida. Passou de atividade doméstica a indústria exportadora depois de 1850 e é hoje, a par do vime da Camacha e de outros ofícios tradicionais, o produto artesanal mais conhecido da Madeira. Se pensa comprar uma peça, o selo de garantia é o elemento mais importante a procurar.
Factos essenciais
- Entidade certificadora: IVBAM, IP-RAM, que verifica cada peça e lhe apõe um selo de garantia.
- Base legal: tecidos, linhas e pontos permitidos estão definidos no Decreto Legislativo Regional n.º 7/91/M, de 15 de março.
- Ponto de viragem: a exposição das indústrias madeirenses no Palácio de São Lourenço, em 1850, seguida da Exposição Universal de Londres, em 1851.
- O selo: desde outubro de 2000, um selo holográfico substitui o selo de chumbo usado anteriormente (Klut, 2003).
- Dimensão do setor: cerca de uma dúzia de empresas e perto de 1000 bordadeiras, segundo o Visit Madeira.
- Vime da Camacha: a indústria do vime na Camacha começou em 1850.
O que é o Bordado Madeira?
É um bordado regulamentado, feito à mão, geralmente com motivos naturalistas inspirados na flora madeirense combinados com formas geométricas. O site oficial do IVBAM para o bordado enumera os materiais admitidos por lei: seda natural, terylene, linhos e organdi em todos os artigos, misturas de linho e algodão com pelo menos 50% de linho, e algodões e lãs específicos para determinadas peças. Só são permitidas linhas de bordar em seda e linhas do tipo floss (algodão) com espessura mínima n.º 16.
Os pontos permitidos dividem-se em três categorias: arrendados (como os pontos Ana, crivo e escada), lançados sobre urdidura (incluindo bastido, caseado, ilhó, cordão e Richelieu) e outros (como pesponto, francês, sombra, corda, granito e matiz). O Visit Madeira refere que, consoante a dimensão do desenho, uma única peça pode demorar vários meses a bordar.
Como se tornou uma indústria de exportação?
O bordado terá chegado com os primeiros povoadores no século XV e foi durante muito tempo praticado por senhoras de famílias abastadas e nos conventos, em vestuário e enxovais. Segundo o IVBAM, a passagem a atividade comercial deu-se com uma exposição das indústrias madeirenses no Palácio de São Lourenço, em 1850. O êxito levou ao convite para a Exposição Universal de Londres, em 1851, onde as peças foram elogiadas pela "pureza" e pela "perfeição artística".
A exportação seguiu primeiro para o Reino Unido e, até ao fim do século XIX, para a Alemanha; no século XX chegou a Itália, Estados Unidos, América do Sul e Austrália. O IVBAM indica os EUA, Itália e Inglaterra como principais mercados atuais. À inglesa Elizabeth Phelps (1820–1893) é tradicionalmente atribuído um papel decisivo no impulso ao bordado, por ter ensinado a bordar em sua casa na década de 1850 — o Largo Phelps, no centro do Funchal, tem o nome da família.
Como se faz uma peça?
O IVBAM descreve uma cadeia de produção que ainda envolve vários especialistas:
- Desenho — o desenhador passa o motivo para papel vegetal.
- Picotagem — o contorno é picotado com uma máquina de agulha; o curvímetro conta depois o número de pontos, que determina o valor pago à bordadeira.
- Estampagem — o desenho picotado é colocado sobre o tecido e uma tinta azul lavável transfere-o.
- Bordado — o tecido segue para as bordadeiras, que trabalham em casa.
- Acabamento — de volta à empresa, as peças são verificadas, recortadas, lavadas e passadas a ferro.
- Certificação — o IVBAM inspeciona o trabalho e apõe o selo de garantia.
As linhas azuladas que pode ver numa peça por acabar são a tinta da estampagem, que sai na lavagem.
Como reconhecer o Bordado Madeira autêntico?
- Procure o selo de garantia do IVBAM. O IVBAM afirma verificar todas as peças de Bordado Madeira e apor-lhes um selo de garantia que certifica a qualidade e a autenticidade. Desde outubro de 2000 esse selo é holográfico; antes, as peças levavam um pequeno selo de chumbo preso por linhas de três cores — roxo, amarelo e vermelho —, que ainda pode encontrar em peças antigas ou em segunda mão.
- Conte com fibras naturais e preço elevado. Linho, seda, organdi e algodão fino são a regra, e uma toalha de mesa grande representa meses de trabalho.
- Compre em locais conhecidos. O Visit Madeira indica a Loja do Artesanato do IVBAM (Rua dos Ferreiros, 152, e Rua 5 de Outubro, 78, Funchal) e a Bordal (Rua Dr. Fernão de Ornelas, 77, Funchal). Muitas casas de bordados têm também salão de vendas no centro do Funchal.
- Em caso de dúvida, pergunte ao IVBAM. Contactos: ivbam@madeira.gov.pt ou +351 291 145 630.
É possível visitar o museu do bordado?
O Núcleo Museológico do IVBAM (Museu do Bordado), na Rua Visconde de Anadia, 44, no Funchal, reúne Bordado Madeira produzido entre a década de 1860 e os anos 1930, exposto em salas que recriam ambientes dos séculos XVIII e XIX, com vestuário, roupa de cama e peças ligadas à produção. Em outubro de 2026, o próprio site do IVBAM indica-o como temporariamente encerrado. Quando aberto, funcionava de segunda a sexta, das 9h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30 (encerrado aos fins de semana e feriados), com bilhete de 2 €. Confirme antes de ir.
O IVBAM organiza também eventos abertos ao público, como a Semana do Bordado da Madeira em torno do Dia Mundial do Bordado (30 de julho) e demonstrações durante a Festa da Flor.
O que é o vime da Camacha?
A obra de vime tem origem na Camacha, freguesia do concelho de Santa Cruz, no leste da Madeira, onde a altitude e a água favoreceram o vimeiro. O Visit Madeira situa o início desta indústria em 1850. As varas são cortadas, descascadas e secas, e depois cozidas — o que lhes dá flexibilidade e a cor acastanhada, em vez do branco original. Servem para cestos, malas, mobiliário, os cestos das vindimas e os carros de cesto do Monte. A maior parte da produção sempre se destinou à exportação, sobretudo para os EUA e a Europa Central. O Visit Madeira refere que as grandes oficinas fecharam e que restam poucos artesãos, muitas vezes a trabalhar por encomenda em casa.
Que outros ofícios tradicionais vale a pena conhecer?
- Botas de vilão — botas altas de couro feitas à mão, antes usadas por toda a ilha. As de mulher tinham uma tira estreita de couro vermelho; a "bota de campo", com sola de borracha, ainda é usada pelos carreiros do Monte como travão.
- Barrete de orelhas — gorro de lã com abas, historicamente usado pelos pastores nas serras.
- Instrumentos musicais — instrumentos feitos à mão, usados na música tradicional madeirense.
- Outros ofícios referidos pelo Visit Madeira incluem peças em cana-de-açúcar e madeira, cerâmica, bonecas com traje regional e miniaturas de carros de cesto e de casas de Santana.
O que os visitantes costumam avaliar mal?
- Achar que "estilo Madeira" é feito na Madeira. Sem o selo do IVBAM, a peça não é Bordado Madeira certificado.
- Comparar preços com linho bordado à máquina. O custo reflete o número de pontos que define o pagamento da bordadeira.
- Planear a visita ao museu sem confirmar. Em outubro de 2026, o museu do bordado está temporariamente encerrado.
Fontes e verificação
Factos verificados nas fontes abaixo a 28 outubro 2026. Como trabalhamos
- IVBAM — Bordado Madeira: história, pontos e matérias-primas, processo produtivo, selo de certificação
- IVBAM — Museu do Bordado: horário e condições de visita (temporarily closed)
- Visit Madeira — Madeira Embroidery
- Visit Madeira — Madeira Crafts and Madeira Wicker
- Klut, A. T. (2003) — Economuseu Casa de Bordados, MA dissertation, ULHT (holographic seal since Oct 2000)
- Wikipedia (pt) — Bordado da Madeira
Fotografias: Dr. Thomas Liptak (CC BY-SA 4.0)