Laurissilva da Madeira: a floresta Património Mundial e onde a percorrer
Porque a UNESCO classificou 15 000 ha de laurissilva em 1999, que árvores e aves endémicas pode ver, que percursos a atravessam, o que a ameaça e as regras para visitantes.
28 outubro 2026 · 6 min de leitura
A Laurissilva da Madeira é a floresta indígena da ilha: cerca de 15 000 ha de floresta sempre verde, perto de 20% do território, sobretudo na costa norte entre os 300 e os 1300 m de altitude. A UNESCO inscreveu-a como Património Mundial Natural em 1999, por ser a maior mancha que resta de um tipo de floresta que já cobriu grande parte do sul da Europa. Pode entrar nela por vários percursos com reserva, desde um caminho de 1,5 km no Ribeiro Frio até à longa levada do Caldeirão Verde.
Factos essenciais
- Património Mundial: inscrita em 1999, na 23.ª sessão do Comité do Património Mundial (sítio 934), pelos critérios naturais (ix) e (x).
- Área: cerca de 15 000 ha. A avaliação da UICN para a UNESCO, em 1999, descrevia o sítio como cerca de 15 000 ha dentro de uma área protegida de 27 000 ha.
- Percentagem da ilha: cerca de 20%, segundo o IFCN, o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza.
- Altitude: dos 300 aos 1300 m na costa norte; dos 700 aos 1200 m em alguns locais de difícil acesso na costa sul.
- Outros estatutos: Reserva Biogenética do Conselho da Europa desde 1992, sítio da Rede Natura 2000 e totalmente incluída no Parque Natural da Madeira.
Porque é a Laurissilva da Madeira Património Mundial?
Os dois critérios correspondem a dois argumentos diferentes. O critério (ix) reconhece a floresta como relíquia. A avaliação técnica da UICN, publicada no site da UNESCO, explica que os fósseis mostram que a laurissilva cobriu grande parte do sul da Europa há 15 a 40 milhões de anos e que a da Madeira é a maior área sobrevivente. A mesma avaliação estimava que cerca de 90% fosse floresta primitiva.
O critério (x) diz respeito à biodiversidade. Em 1999 a UICN contou no sítio pelo menos 66 espécies de plantas vasculares endémicas da Madeira, 13 hepáticas e 20 musgos classificados como raros ou ameaçados à escala europeia, e animais endémicos como um pombo, um lagarto, dois morcegos e subespécies endémicas de tentilhão e bis-bis. O IFCN refere que nesta floresta se encontram mais de 80% dos endemismos da Região. Na avaliação de 2025, o World Heritage Outlook da UICN classifica o estado do sítio como "bom, com algumas preocupações".
O que é o Parque Natural da Madeira e qual a relação com a Laurissilva?
O Parque Natural da Madeira foi criado em 1982 pelo Decreto Regional n.º 14/82/M e ocupa cerca de dois terços da ilha, segundo o World Heritage Outlook da UICN. A Laurissilva está inteiramente dentro do parque. O IFCN gere a maior parte do bem classificado, e o uso do território é regulado por um plano próprio, o Plano de Ordenamento e Gestão da Laurissilva da Madeira.
Na prática, a floresta é uma área protegida em funcionamento, não um parque com portões. Os percursos estão classificados, muitos são pagos e com reserva por horário, e algumas zonas têm estatutos adicionais. O Fanal, por exemplo, é uma Reserva de Repouso e Silêncio dentro do Parque Natural.
Que árvores e aves vai realmente ver?
O IFCN indica como árvores dominantes as endémicas da família das Lauráceas:
- barbusano (Apollonias barbujana)
- loureiro (Laurus novocanariensis)
- til (Ocotea foetens), que a UICN registou com até 40 m nos vales mais baixos
- vinhático (Persea indica)
Ao lado crescem outras árvores endémicas de famílias diferentes, como o folhado (Clethra arborea), o pau-branco (Picconia excelsa) e o mocano (Visnea mocanera). Junto às ribeiras são comuns os seixeiros e os sabugueiros. Nos taludes e clareiras destacam-se arbustos endémicos como o massaroco e o isoplexis. Os fetos enchem os vales sombrios. Musgos e líquenes cobrem taludes, troncos e rochas, e o IFCN sublinha que os líquenes indicam ar e água de grande qualidade.
A avifauna tem poucas espécies, mas muitos endemismos. Segundo o IFCN, no interior da floresta observam-se regularmente cerca de sete espécies. As duas espécies endémicas deste ecossistema são o pombo-trocaz (Columba trocaz) e o bis-bis, a ave mais pequena da Madeira. O pombo alimenta-se em parte do fruto do til e é considerado o semeador da floresta. O tentilhão, também endémico, é muitas vezes o mais fácil de ver, porque se aproxima dos caminhantes. O melro-preto, o papinho, a lavandeira, a manta e o francelho também são frequentes. A lagartixa, o único réptil nativo da ilha, aparece nos sítios soalheiros.
Onde pode entrar na Laurissilva?
O Visit Madeira indica as Queimadas, o Chão dos Louros, o Chão da Ribeira, o Fanal e o Ribeiro Frio como locais para conhecer a floresta. Vários percursos deste guia atravessam-na, cada um com uma faceta diferente:
- A visita rápida: a Vereda dos Balcões (PR 11), no Ribeiro Frio, tem 1,5 km em cada sentido e é quase plana. Termina num miradouro sobre o vale da Ribeira da Metade, coberto de floresta. O IFCN recomenda-a para observar aves endémicas.
- No interior da floresta: a Levada do Caldeirão Verde (PR 9) parte das Queimadas e segue 8,7 km em cada sentido sob a copa, com quatro túneis antes da cascata. Leve lanterna.
- Tis antigos em pastagem aberta: a floresta do Fanal, acessível de carro ou no fim do PR 13 Vereda do Fanal. Aqui o nevoeiro entra muitas vezes vindo do norte.
A floresta e as levadas estão ligadas. A UICN descreve a Laurissilva como uma floresta que capta e retém água, e muitas levadas nascem em nascentes no seu interior. A nossa história das levadas da Madeira explica para onde vai essa água.
Qual a melhor altura para ir?
A floresta está verde todo o ano, mas a vertente norte está muitas vezes coberta de nuvens e os caminhos mantêm-se húmidos e escorregadios. Começar de manhã dá mais horas de luz em percursos longos como o PR 9. Para as vistas dos Balcões, escolha um dia com previsão de céu limpo. Para o ambiente de nevoeiro do Fanal, um dia com nuvens baixas na costa norte é o ideal. Com vento forte ou chuva intensa, o IFCN pode condicionar ou encerrar percursos, por isso confirme o estado no próprio dia.
O que ameaça a floresta?
O World Heritage Outlook da UICN classifica os incêndios e as espécies invasoras como ameaças elevadas. Regista 599 ha de floresta perdidos para o fogo em 2023 e 149 ha em 2024. As plantas invasoras são a principal preocupação, a par de animais como gatos assilvestrados, furões e coelhos. As alterações climáticas agravam ambos os problemas. O relatório nota ainda que o plano de gestão de 2009 foi executado só em parte, sobretudo por limitações orçamentais, e que a sua revisão começou em 2024.
Que regras se aplicam na visita?
As normas de conduta do IFCN para áreas naturais são claras. Na Laurissilva, as mais relevantes são:
- Reserve e confirme: os percursos PR classificados exigem reserva de horário e taxa no SIMplifica; veja o nosso guia de reservas e taxas. Confirme se o percurso está aberto, condicionado ou encerrado.
- Fique no trilho sinalizado. Sem atalhos. Se uma derrocada bloquear o caminho, volte para trás em vez de a contornar.
- Não leve nada. Não apanhe flores nem plantas, nem leve pedras ou outras "lembranças".
- Não deixe nada. Traga todo o lixo consigo e não lave nada nas nascentes ou ribeiras.
- Nada de fogo. Não faça fogueiras nem fume na floresta, sobretudo com tempo quente e seco.
- Respeite a fauna. Observe os animais à distância e nunca os alimente.
- Mantenha o silêncio. Deixe colunas de som em casa e mantenha o cão controlado, porque muitas áreas não permitem animais domésticos.
- Número de emergência: 112. Não caminhe sozinho e termine antes de anoitecer.
Fontes e verificação
Factos verificados nas fontes abaixo a 28 outubro 2026. Como trabalhamos
- IFCN — Laurissilva da Madeira, Património Mundial Natural (area, altitude, species, protection)
- UNESCO World Heritage Centre — IUCN technical evaluation of the Laurisilva of Madeira (1999)
- IUCN World Heritage Outlook — Laurisilva of Madeira (2025 assessment)
- IFCN — Normas de conduta em áreas naturais (code of conduct)
- Visit Madeira — Floresta Laurissilva (official tourism board)
- Wikipedia — Madeira evergreen forests (World Heritage listing details, scientific names)
Fotografias: Ricardo Martins (CC BY-SA 4.0)